Crítica | 'I Promised You The Moon' possui uma excelência técnica, mas foi vítima das próprias promessas

Quando a Nadao Bangkok, respeitada agência e produtora, anunciou BKPP The Series, nascido do ship dos seus agenciados, uma expectativa altíssima foi criada. I Told Sunset About You acabou por elevar o BL tailandês a níveis de aclamação inimagináveis até então e pra surpresa de muitos uma segunda parte havia sido planejado desde o início. E assim nasceu I Promised You The Moon.

Agora morando em Bangkok, Teh e Oh Aew tem de lidar com a dura realidade que a competição e os sonhos adolescentes que eles tinham não correspondiam à realidade. Enquanto Oh Aew percebe que não se encaixa com a atuação, Teh aos poucos percebe que nada daquilo que sempre acreditou se sustenta, o que lhe levará a tomar atitudes que colocarão seu romance com Oh em cheque.

I Promised You The Moon tinha a missão nada grata de suceder uma série fenomenal como I Told Sunset About You e há duas análises que podem ser feitas sobre o resultado. Uma que foi entregue uma obra distinta de altíssima qualidade, com uma complexidade de sentimentos ainda maior que a predecessora e um belíssimo ensaio sobre o mundo das atuações usando como plano de fundo um relacionamento em seus piores dias. Por outro lado, ela é uma segunda parte de uma história de amor vendida para um público que se encantou com o atribulado romance juvenil de dois rapazes, parte de um projeto criado para promover os atores Billkin e PP. Por este ponto de vista, tivemos alguns erros significativos que tiram o brilho da jornada.

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Com o casal na cidade, criou-se um espaço muito fértil para falar sobre quebra de expectativas e decepção com o mundo real. Ambos personagens, Teh e Oh Aew, reagem de uma forma esperada para suas personalidades. Enquanto Oh, apesar de tímido, racionaliza a decepção e parte em frente para outro sonho, Teh, idealístico e impulsivo, passa a se frustrar mais a cada dia, se prendendo aos sonhos e realizações de outras pessoas para validar os seus. A partir de certo ponto, o aspirante a ator se vê sendo seduzido pelo mundo da atuação, com a influência do inescrupuloso Jai que quer a perfeição em sua peça, ao passo que se distancia de um Oh Aew cada dia mais seguro de si experimentando a vida gay com seus amigos de Bangkok. O arriscado caminho que a série optou por tomar poderia ter sido um desastre completo se não fosse a perfeita construção dos sentimentos dos personagens. Por mais que seja algo que a nível pessoal sejamos avessos, a forma como a manipulação e o desastre emotivo sobre o Teh foi feita foi sublime de se assistir. No episódio final em especial vemos uma complexidade de sentimentos difícil de ser explorada em obras da demografia: o vazio mesmo com o sonho alcançado, o amor residual que nos põe em conflito sobre nossas próprias feridas e por fim o entendimento de que promessas juvenis são exageradas e emotivas, não se comunicam com o ser humano falho. Surpreendeu ainda como o roteiro conseguiu arrumar a bagunça emocional da jornada de uma forma madura ao fim, conseguindo acalmar grande parcela dos fãs.

Contudo a proposta de "I Promised You The Moon" era ser parte de um projeto maior, onde se explorariam os talentos de ambos os atores através da narrativa de Teh e Oh Aew. Nesse aspecto, temos um grande fracasso: Oh Aew foi praticamente reduzido a coadjuvante da narrativa do Teh por dois terços da segunda parte. E aqui advém a frustração de muitos do público: apesar de coerentes com os personagens apresentados na parte 1, temos aqui como grande êxito a sedução entre Teh e Jai, sendo esta a segunda parte de um romance sobre outro casal. Até a cena de sexo primorosamente realizada por Billkin e PP era parte de um jogo mental para Teh recobrar memórias e poder cumprir o sonho de Jai da peça perfeita. Nesse sentido é compreensível o argumento de que a magia de I Told Sunset About You foi perdida (apesar da tensão emocional de ambas as partes ser semelhante): "I Promised You The Moon" foi produzida pensando numa audiência com outras expectativas, mas vendida como continuação de um romance jovem. Ainda, pra uma série que foi tão corajosa de mostrar com tanta intensidade a confusão do ator perante o seu sonho e o desejo por parceiros de cena, o final de margarina corrido pode soar um tanto decepcionante.

A parte da opção narrativa, temos aqui uma qualidade visual e requinte de produção equiparável à parte 1. Conseguindo dar uma vida interessante à cinzenta Bangkok, a fotografia continua sendo um grande destaque da produção. O time de desing e figurino também demonstrou uma grande preocupação em mostrar a mudança dos personagens de forma compatível ao que sempre foram, suprimindo um defeito do roteiro que devido ao curto tempo teve de falar ou usar de artifícios visuais para essas mudanças ao invés de mostrá-las ocorrendo de fato. Temos ainda quatro músicas originais tão cativantes quanto as de I Told Sunset About You. Importante destacar o êxito de atuação, em especial de Billkin, PP e Oab. A complexidade de sentimentos lhes dada para trabalhar não era nada fácil, em contraste à parte um onde tínhamos uma tendência a cenas melodramáticas que beiravam o desconforto do público, mas que casavam perfeitamente com a inexperiência adolescente onde tudo é exagerado de mais. Agora é exigido deles atuações mais sutis e contidas, com sentimentos antagônicos às vezes na mesma cena e ninguém decepcionou.

I Promised You The Moon se distingue dos demais BLs tailandeses na mesma intensidade que I Told Sunset About You. Pouquíssimas apresentam um requinte visual e intensidade de roteiro e entrega de atuação como elas. Contudo por um lado essa segunda parte pareceu um pouco deslocada dentro de sua própria proposta. Ainda que não seja do paladar de parte da audiência, ela apresentou uma qualidade inegável.

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