Crítica | 'HIStory4: Close To You' é uma grande piada desastrosa de péssimo gosto.

Após problemas na produção de HIStory3, era pouco provável que tivéssemos uma sequência da antologia taiwanesa. Com todos os fundadores da franquia fora, a LINE TV comprou a marca e decidiu dar sequência com roteiro nas mãos da questionável Shao Hui Ting, que escreveu "Make Our Days Count". E era melhor ter deixado pra trás mesmo.

Aqui acompanhamos os dois altamente heterossexuais Li Cheng e Mu Ren, funcionários de uma agência de casamentos. Li Cheng é apaixonado por uma fujoshi e para agradá-la passa a fingir que tem algo com Mu Ren. No outro casal, temos o sofrido e excluído homem gay Xing Si e seu irmão de criação psicopata Yong Jie que não poupa crimes para fazer de seu irmão seu namorado.

Desde os primeiros boletins de imprensa algo parecia errado: enquanto nos HIStorys passados se era elogiada a trama e a dedicação dos atores, aqui a empresa se preocupou em divulgar o quão altos eles eram e como foram selecionados de acordo com a sua capacidade de beijo (eles comentam terem beijado mais de 20 homens cada durante as audições) e não pela atuação. Isso foi muito bem traduzido para a série: apesar de ter uma construção visual muito bonita, por vezes mesclando uma estética de mangás de comédia com mangás BLs sexuais, as atuações são bem ruins. Cenas como a revelação do grande plano maquiavélico de Yong Jie no lugar de emocionar ou chocar, se tornaram cômicas pois nenhum dos atores parecia saber o que estava fazendo. O único que parecia ter alguma noção de atuação era Charles Tu, intérprete de Li Cheng.

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Apesar de no geral a produção técnica ser boa, é impossível ignorar o desastre de roteiro que temos. A roteirista parece ter algum tipo de obsessão em reafirmar a heterossexualidade de seus personagens. Cerca de dois terços da série vemos o casal principal brincando sobre quem tem o maior órgão genital, quem é o mais mulherengo, quem já namorou mais mulheres. O casal secundário temos um stalker abusador, que arquiteta um plano para drogar e abusar sexualmente de seu irmão, para que isso seja um crime tão grande que seu pai não ache ruim o irmão ser gay. A mãe parece uma paródia: ela sabe de todos os crimes do filho e só tenta amenizar as coisas. Magicamente após saber do abuso, em dois episódios o pai aceita o namoro dos filhos.

O show de horrores continua: enquanto temos assédio por parte de ambos casais protagonistas, um personagem gay mais velho afeminado é visto como o grande vilão por fazer o mesmo que os principais fazem. Jamais o defendendo, mas o duplo padrão de condenação é visível e até auto consciente na série: em certo momento Mu Ren questiona Li Cheng que se ele fizesse aquilo em mulheres seria abuso e Li Cheng questiona que se eles são dois homens, então não seria assédio. Ainda se repete aqui a miserabilidade no retrato dos personagens abertamente gays de "Make Our Days Count". Na entrelinha, parece que a roteirista não gosta deles e tem prazer em fazê-los os mais tristes da série.

Talvez se tivesse investido na paródia, a trama principal pudesse ter funcionado (e passou a funcionar em partes na reta final), mas se levou a sério de mais para isso. Já a trama secundária mesmo tendo aberto um espaço para um desenvolvimento de personagem, tudo foi raso como um pires, se tornando apenas uma trama que deveria ter sido esquecida lá no início dos anos 2000.

"HIStory4: Close To You" é um show de ofensas gratuitas que mostra a diferença que uma equipe com uma visão criativa ajustada faz. O lado ruim? Não podemos confiar mais na franquia. O lado bom? Taiwan agora tem armamento nuclear pesado.

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