Opinião | Cobrar atores LGBTs em BLs é o caminho?

Se tornou uma tendência nos últimos anos cobrar atores não heterossexuais para papéis não heterossexuais. Com a expansão do BL no ocidente, surgiu também essa cobrança um tanto colonizadora nesse mercado. Quais seriam as implicações disso? Como a questão é lida nos países em questão?

O que mudaria com atores LGBT nos papéis? 

A cobrança de atores LGBTs sempre surge quando um ator tenta se distanciar o mundo BL para não passar a sofrer typecasting (ser sempre chamado para apenas um tipo de papel). Em teoria, atores LGBTs não teriam problema de fazerem papéis de homens que se relacionam com homens. 

Contudo, há de se lembrar que no próprio ocidente, se assumir no meio artístico limita suas possibilidades de papel. Enquanto alguns atores dão a cara a tapa, muitos devido às possibilidades de crescimento de carreira optam por ocultar esse detalhe. É comum no ocidente que atores que fazem a vida como galã ou com “papel de pai” só se assumam na velhice. A questão é bem mais complexa na Ásia. Seja devido a obrigação familiar na Tailândia ou o catolicismo radical nas Filipinas, é ainda mais difícil se assumir.

Recentemente o diretor Juan Miguel Severo em seu BL “Gaya Sa Pelikula” abriu pesquisa de elenco com o requisito do ator ser LGBT assumido. Ele passou a receber e-mails de aspirantes ou atores iniciantes dizendo que o requisito o impedia de tentar o papel, pois significaria se assumir publicamente e muitos não estão preparados para isso. Depois o diretor retirou esse requerimento, mas ainda assim Paolo Pangilinan, assumidamente queer, se tornou um dos protagonistas da série.
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image description Ian Pangilinan e seu parceiro de cena Paolo Pangilinan nos workshops de Gaya Sa Pelikula


Outro argumento comum é que isso evitaria os conflitos tão comuns com namoradas de atores heterossexuais. Ao longo dos anos, atores que assumem publicamente uma namorada já sofreram de diversas formas. Seja atribuindo atos da namorada ao ator, pressão das fãs pelo fim do namoro e até mesmo brigas públicas entre as namoradas e as fãs ou até mesmo do ator com as fãs e parceiro de tela. Em teoria, o ator ser gay evitaria isso, mas infelizmente, o histórico que temos não é positivo. 

Fluke Natouch e Earth Katsamonnat “magicamente” acabaram com seus namorados pouco antes de iniciar as gravações de BLs que fizeram. É comum relacionamentos não se sustentarem devido à correria do showbiz, mas também é sintomático que os atores tenham de abdicar da vida pessoal antes mesmo da série ir ao ar.

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image description Fluke Natouch e Earth Katsamonnat

Infelizmente, enquanto a homofobia estrutural for tão forte, cobrar isso acaba respingando nos próprios atores LGBTs. Sempre será muito válido celebrar atores assumidos que fazem esses papéis e aos poucos eles estão aumentando em quantidade, contudo cobrar com padrões nossos algo que tem outro peso na cultura deles não é de bom tom.

É importante ressaltar ainda, que apesar de se sobrepor, o mercado BL não foi pensado por e para LGBTs. Ele serve sim de escapismo para muitos da comunidade nesses países, mas o foco jamais foi esse. Mais que na frente das telas, a evolução é visível desde que diretores e produtores LGBTs passaram a se envolver nas obras. Esse ponto tem sido visível nas Filipinas, onde diretores gays encontraram na popularidade repentina do mercado BL uma forma de contar suas histórias.

O se assumir publicamente e os tabloides

A imprensa Filipina e Tailandesa é conhecida por ser bem apelativa, com perguntas indiscretas e plantar notas sobre as sexualidades dos atores. Diversos atores de BL já foram vítimas dos tabloides, alguns conseguiram ocultar as matérias e nunca se pronunciaram sobre o assunto, outros continuam até hoje a ser apontados como affairs de outros homens.

Apesar de nunca ter falado abertamente sobre sua sexualidade, o ator Gun Atthaphan já foi diversas vezes acusado de ser o pivô de separação de casais gays. O caso mais recente terminou na delegacia. O ator, que vinha sendo perseguido nas redes por supostamente ter separado um casal, prestou queixa contra as contas que disseminavam a notícia falsa.

Outro ator constantemente vítima dos tabloides é Sarin Inpitar, ator do CH3 e futuro protagonista do primeiro Lakorn BL, “Teddy Bear Miracle”. O ator nos últimos anos foi “tirado do armário” diversas vezes, com diversas notas de supostos namorados. Às vezes as notícias diziam que o mesmo havia assumido, o que nunca ocorreu. Todos os casos foram negados pela assessoria de imprensa. O interesse da mídia era tanto que muito antes de qualquer anúncio, o ator foi ligado ao projeto do primeiro BL do CH3 junto a diversos outros atores.

Tony Labrusca, o Xavier de "Hello Stranger", em janeiro de 2019 virou manchete ao brigar com um agente de imigração das Filipinas por se recusar a dar-lhe um visto que não fosse de turismo (o ator é na verdade americano). Mas um detalhe chamou atenção: as notícias diziam que ele estava na imigração com seu suposto namorado, o também ator Alex Diaz. O público se dividiu, pois apesar dele estar sendo vítima de tabloides, seu comportamento rude não fora bem visto. Tony se limitou a dizer que era um absurdo dizer que eles eram namorados apenas por estarem no mesmo vôo.
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image descriptionGun Atthaphan, Sarin Inpitar. Tony Labrusca e Alex Diaz

Meses depois Alex Diaz é forçado a se assumir ao ser chantageado por um personal trainer. Inevitavelmente ele teve que explicar a situação com o Tony e reforçou que eles eram apenas amigos e que se quer haviam viajado juntos, apenas se encontraram no avião. 

Durante a promoção de “Hello Stranger”, Tony diz que devido a tudo que passara no último ano, relutou em aceitar o papel (que foi idealizado para ele pelo roteirista). Contudo acabou aceitando ao perceber que não havia como o público odiá-lo mais do que ele já era odiado. A postura dele e do Gun de comentarem publicamente e continuar a fazer trabalhos relacionados é rara na cena.

A busca por representação e identificação (ou até mesmo da possibilidade dos ships serem “reais”) fazem com que o público busque falas ou situações onde supostamente os atores se assumiram. A verdade é que frases como “amor não tem gênero”, “na cena foi bom” e “os lábios dele são bons” são na maioria das vezes um roteiro que os atores aprendem. A menos que um ator tenha assumido publicamente em revista ou em suas redes sociais seja por falas explícitas ou um relacionamento homoafetivo, não se deve ficar impondo aos outros uma sexualidade. Ainda que esse ator tenha sido exposto por terceiros ou tenha sido vítima de tabloides.

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